Nelson Rodrigues certa vez publicou um conjunto de contos que retratavam os seres humanos como eles realmente são: gananciosos, mentirosos, libidinosos e sofredores. Nenhum defeito escapava da lupa posta em posição de análise sobre ele.
Pena que pessoas defeituosas e cotidianos banais só façam sucesso no campo da literatura. Nenhuma pessoa que se preze gostaria de analisar suas imperfeições e, muito menos, ser chocada com o estranho universo que é o outro à nossa frente.
Estamos pasteurizados e assim alteramos o mundo à nossa volta.
A celebridade na capa da revista não possui rugas, olheiras e nem mesmo gordurinhas em volta da cintura, ultra fina graças ao Photoshop. O Big Mac em sua bandeja está longe de ser tão grande ou bonito como o retratado no cartaz que fez sua boca aguar.
Gostamos de ser enganados e acabamos por enganar a nós próprios. Acabamos por escolher facetas que gostaríamos de propagar e as estampamos, junto com uma foto bem produzida, em um perfil do Orkut. Continuamos mentirosos, mesquinhos e sofredores, apenas não gostamos de demonstrar.
A vida retratada por Nelson Rodrigues pode não ser mais como ela era, mas as pessoas nunca deixarão de ser como elas são.