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Estou doente
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Como eles se conheceram é difícil explicar. É fácil falar que o Dudu conheceu o Jonas durante uma prova em grupo de Física. Que Jonas e Paulo conheciam Ceará desde pequenos. E que Aníbal e Shoyo brincavam de se imaginar em uma banda grunge. Ou Punk. O que quer que fosse. Mas mesmo assim é quase impossível precisar o momento certo em que os 7 se tornaram conhecidos. Amigos. Família.
Mas aconteceu, assim como 2 + 2 são 4. Talvez tenha sido destino, como uma das namoradas de Paulo gostavam de imaginar. E talvez tenha sido... sorte. Mas a única certeza que se podia ter era que não foi azar. Porque isso a gente percebe logo de cara, e tudo e todos que não contribuíam com eles acabaram ficando pra trás, talvez aparecendo em uma foto em algum lugar, mas nunca presentes como um todo em suas vidas atuais.
E embora 2 + 2 sejam 4, o conjunto de sete jamais deu 7. Cada um com seu estilo, e o caráter exclusivo de cada. Cada qual com suas idéias. Os sete podiam ser 10, 15 e até 1.000, dependo da intensidade com que se vivia o momento. Podiam gritar e falar mais alto do que torcida de futebol. Bastava que um deles, ou todos eles, dessem um motivo. Podia ser alguma aventura sexual que deu errado, contada em uma mesa de bar. Ou a falta de alguma. O azar de algum conhecido deles, descrita em forma de tópico em algum e-mail que tratava da inserção do Brasil na América Latina. Alguma discussão esdrúxula sobre o que vendia mais, barbies ou susies, enquanto voltavam juntos de alguma aula chata de religião. Ou até mesmo a nova namorada esquisita de Aníbal, debatida em mesa redonda na biblioteca.
E embora eles tivessem a intensidade de 1.000 eles sabiam ser apenas 1. Quando Jonas acabou com sua namorada, todas as 50 vezes, eles estavam lá para consolar. Quando a mesma namorada esquisita largou Aníbal, deixaram de estudar para jogar futebol. Inclusive quando se reuniam para comemorar o simples fato de terem conseguido reunir os 7, em uma quinta-feira, em torno de uma mesa de bar, eles sabiam ser 1 só.
Mas dizer que eles se encorajavam seria sustentar uma mentira. Se Zé aparecesse um dia com um excelente plano para mudar de vida, os outros seis iriam criticar, debochar e descartar tal possibilidade, transformando-a em alguma enquête/brincadeira no e-mail do dia seguinte. Foi assim quando Ceará resolveu que queria trabalhar fora, Dudu quis virar ator, Zé mudou de faculdade pela terceira vez e Jonas decidiu que ia pra Roma.
Talvez o deboche e a crítica fossem formas de demonstrar a proximidade que existia entre eles. Eles se conheciam bem o suficiente para saber que a viagem pra Argentina em Julho jamais iria acontecer, pra saber que eles agora eram mais que amigos, eram uma família. E que passar a mão na cabeça de ninguém era sua função. E bola pra frente, porque o negócio era viver.
E como eles viviam. Bom Jesus e os caminhos perdidos por cima do morro, futebol americano em alguma praia em Angra, Kovak ou qualquer coisa parecida misturada com guaraná quente, filme com pizza na casa de Aníbal, ensaio de banda, Zé anunciando que era o mais bem preparado para ser rico, nossas gargalhadas e mais gargalhadas como resposta. “Bolota, me vê um parede”, Paulo, nem ninguém, esqueceria. Pular da pedra em Itacoatiara e sair correndo pro pronto-socorro tirar espinho de ouriço no pé, festa à fantasia no meio da semana, em ano de vestibular. Churrascos em Piratininga. Xelly na piscina, a confusão para arranjar um bar toda quinta. “Quando acaba o assunto fica o maior silêncio”, “Cheira minha virilha” e “Prima Donabella”. Touché toda semana pra ajudar a banda, “1,2,3,já” e a dancinha dos joelhos de Zé. As promessas que nunca se cumpriam de arrumar a casa de Dudu depois de tudo, tia cocota e o play de Jonaspaulo. Babynation, Porra Gorda Azul e Portal L. Mochilão pela Europa e a volta de carro pela avenida das prostitutas depois de sair do Orbital. Turbilhão e latinha de cerveja furada com a chave. Shoyo namorando a garota pela qual Dudu era apaixonado e Ceará sem falar com Jonas por causa de briga em chopada. Chopadas, dragonetes e a mulher com creme no cabelo que Aníbal pegou. A primeira vez de Jonas, acompanhado de Shoyo, Zé e suas perguntas obcenas em Ouro Preto, respondidas inocentemente por Dudu, Ceará e a lingerie de 100 dólares. As festas juninas e os sushis na casa de Shoyo. A tatuagem que eles planejavam fazer juntos.
Uma quinta-feira eles se encontraram no bar e discutiram a vida a dois de Aníbal e a idéia absurda de Paulo de se mudar para algum canto remoto da Europa. Dudu ficou bêbado e falou nada com nada e Shoyo foi embora cedo, antes de tudo começar. Zé chegou atrasado como de costume e Jonas filosofou sobre o último livro que começou a ler. Não sei se eles foram ou não pra casa de Ceará depois jogar videogame.
Na semana seguinte Zé não pode deixar a namorada, mas Aníbal apareceu junto com Ceará e Dudu. Na outra semana não deu pra ninguém ir, embora Dudu conseguisse sair um pouco mais cedo da faculdade. Ceará e Jonas se esbarraram um dia e em alguma quarta-feira Shoyo ligou para falar com Paulo. Se passaram 3 semanas sem ninguém aparecer no bar. Os e-mails começaram a rarear. A cada mês surgia alguma discussão sobre as namoradas poderem ou não ir, o que facilitaria muito as coisas. Se passaram 6 meses, com pequenos encontros esporádicos na rua, e conversas pelo telefone ou msn.
No final do ano Ceará começou a namorar. Zé foi estudar nos Estados Unidos e tentou manter contato por e-mail. Paulo não viajou, mas sumiu de vez. Aníbal virou professor e Shoyo casou cedo. Alguns dizem que Jonas foi pra Roma mesmo e que Dudu finalmente tenha virado ator de musical em Londres.
E então um dia os 7 finalmente se tornaram 7. 7 Indivíduos, com 7 trabalhos e 7 famílias. E tudo que restou dos 1.000 foram algumas fotos tiradas com o celular, alguns e-mail não apagados, e por que não algumas boas lembranças. Lembranças dos 7 que sempre foram muito mais do que o significado da nova tatuagem de Dudu.